Há uma amiga minha que diz que estou sempre no contraditório: Se estou entre Caçadores, defendo os (verdadeiros) Ecologistas e se estou com os Ecologistas defendo a Caça!
Tenho consciência que é muito impopular o que vou escrever, porém, tem de ser dito, senão parece que vai tudo bem e, na verdade, não vai!
Está a passar-se uma situação, que é transversal a muitas Zonas de Caça, onde as Perdizes e os Coelhos-bravos já acabaram e, neste momento, “caçam-se” apenas espécies de cativeiro, algumas poucas migratórias e o muito comum Javali.
Muitos Caçadores e dirigentes de ZC, apesar de conhecerem muito bem o comportamento, sabem pouco da bioecologia e, por conseguinte, das necessidades das espécies; e, para alguns caçadores, que pagam as quotas e inscrições, na verdade, o ano que vem, o amanhã, não conta.
Antigamente, antes do “Ordenamento”, quando se caçava no “terreno livre”, não se podia prever e era impossível, mesmo que se quisesse, determinar a quantidade de animais que ficavam no campo. E, na verdade, os terrenos de caça não eram limitados pela área concessionada e com a sinalética dos processos, como agora nos terrenos ordenados. Contudo, o “feitiço”, parece estar agora a virar-se contra o “feiticeiro”. Isto é, um sistema, que é belíssimo, que tem de ser, que só pode ser assim, que é o “Ordenamento do território”, a “Caça Organizada”, está assim, infelizmente, a ficar em causa!
Um grupo de 30 Caçadores, que detém uma Zona de Caça com, por exemplo, 900 ha, se for caçando todos os anos uma quantidade de espécies de caça, baseando-se apenas nas quotas que pagam, e no que cobram, sem ter em conta, o que fica de uns anos para os outros, o êxito reprodutivo dessas espécies naquele local, o tipo de exploração agropecuária, os imprevisíveis e cada vez mais extremos fatores climáticos de cada ano, como as secas e os calores extremos, as trovoadas e outros, está a correr sérios riscos e a pôr em causa o efetivo das espécies que poderá reproduzir-se e consequentemente, poder caçar, nos próximos anos.
A Caça às Espécies Cinegéticas, é a exploração dos recursos, e é recorrentemente confundida com a Gestão do Habitat e dos Recursos Cinegéticos, que é uma das disciplinas da Gestão Cinegética, que está estudada e é aplicada com êxito em muitos sítios onde, efetivamente as espécies de Caça vingam para se poderem Caçar no Futuro…
Há já muitos anos que digo isto: É preciso incorporar Gestão Cinegética nas Zonas de caça! E isso um bocado impopular, porque o pessoal quer é dar tiros e não ficar a pensar no que vai ficar…nem para o ano…e é preciso é caçar este domingo, agora!
Se as Zonas de Caça continuarem neste caminho, e não prestarem atenção nem incorporarem gestão, e é difícil concordar e assumir, eu sei, mas, não só vamos ficar sem Caça Bravia, como vamos ser ainda mais perseguidos e ostracizados pelas organizações animalistas e pela sociedade urbana em geral, que se vão atirar a nós, proibindo tudo e mais alguma coisa que possamos fazer no Campo, pois, afinal não zelamos pelo meio ambiente e pelos ecossistemas (como apregoamos), limitamo-nos assim a adquirir animais criados em cativeiro para depois matarmos nas nossas imitações de caça…
João Grosso
Gestor de Caça

